Prysmian anuncia acordo de US$ 3,8 bi pela Atkore e aposta que o gargalo do data center não é o cabo
A dona do cabo vai atrás de eletroduto, eletrocalha e leito. O que muda na especificação elétrica e o que isso pode significar para as fábricas brasileiras da companhia.
A Prysmian, maior fabricante de cabos do mundo, anunciou em 3 de agosto de 2026 um acordo para adquirir a americana Atkore por US$ 3,8 bilhões (cerca de € 3,3 bilhões) de enterprise value, ao preço de US$ 95,00 por ação em dinheiro, segundo o release da própria Prysmian e o comunicado da Atkore distribuído pela Businesswire. O detalhe que interessa a quem projeta instalação elétrica está no catálogo da comprada: a Atkore não fabrica cabo. Ela fabrica eletroduto de aço e de PVC, eletrocalha, perfilado, leito, conduíte e caixa. Traduzindo, a maior fabricante de condutor do planeta está dispondo de quase US$ 4 bilhões para comprar exatamente o que vai em volta do condutor. E o negócio ainda não está concluído: depende da aprovação da maioria dos acionistas da Atkore e de aval regulatório, com conclusão prevista até o fim de 2026.
Em resumo
- US$ 3,8 bilhões (€ 3,3 bilhões) de enterprise value, a US$ 95,00 por ação em dinheiro, conforme o release da Prysmian e o comunicado da Atkore na Businesswire.
- Prêmio de 30% sobre o fechamento de US$ 72,96 do dia 31 de julho, na conta da Reuters, e de 23% sobre o VWAP de 90 dias, na conta do release da Prysmian. Os dois números existem, mudam só a base de cálculo.
- Múltiplo de 9,8x EV/EBITDA 2025, que cai para 7,1x se as sinergias previstas de US$ 150 milhões por ano em três anos se confirmarem (release da Prysmian).
- A Atkore fechou o ano fiscal de 2025 com US$ 2,85 bilhões de receita, US$ 386 milhões de EBITDA, cerca de 5.400 funcionários e aproximadamente 30 plantas. O grupo combinado fica com receita pro-forma de € 22,1 bilhões e EBITDA ajustado de € 2,7 bilhões (release da Prysmian).
O que exatamente a Prysmian acordou comprar?
A Atkore é uma fabricante americana de infraestrutura de contenção e distribuição elétrica. O portfólio dela é aquele conjunto que aparece na planta baixa do projetista antes do cabo entrar: eletroduto rígido de aço, eletroduto de PVC, conduíte flexível, eletrocalha, perfilado, leito para cabos, caixas e acessórios de fixação. É um negócio de aço, resina, conformação mecânica e logística pesada, não de metalurgia de cobre e isolação polimérica.
Segundo o release da Prysmian e o comunicado distribuído pela Businesswire, a companhia encerrou o ano fiscal de 2025 com US$ 2,85 bilhões de receita, US$ 386 milhões de EBITDA, cerca de 5.400 funcionários e aproximadamente 30 plantas. Essa malha industrial espalhada pelos Estados Unidos é parte relevante do que está sendo comprado: em contenção, frete e prazo de entrega pesam quase tanto quanto preço unitário, porque eletrocalha e leito ocupam volume e não viajam bem.
Quanto a Prysmian está pagando, e o preço faz sentido?
O acordo é de US$ 95,00 por ação em dinheiro. O prêmio depende da régua usada. Sobre o fechamento de US$ 72,96 do dia 31 de julho, a Reuters calcula 30%. Sobre o VWAP de 90 dias, o release da Prysmian calcula 23%. Quem for citar o número em reunião faz bem em dizer a base junto, porque as duas contas estão corretas e medem coisas diferentes.
| Item | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Enterprise value | US$ 3,8 bi (€ 3,3 bi) | Release da Prysmian / Businesswire |
| Preço por ação | US$ 95,00 em dinheiro | Release da Prysmian / Businesswire |
| Prêmio sobre o fechamento de 31/07 (US$ 72,96) | 30% | Reuters |
| Prêmio sobre o VWAP de 90 dias | 23% | Release da Prysmian |
| Múltiplo EV/EBITDA 2025 | 9,8x, caindo para 7,1x com sinergias | Release da Prysmian |
| Receita da Atkore (ano fiscal 2025) | US$ 2,85 bi | Release da Prysmian / Businesswire |
| EBITDA da Atkore (ano fiscal 2025) | US$ 386 mi | Release da Prysmian / Businesswire |
| Estrutura da Atkore | ~5.400 funcionários e ~30 plantas | Release da Prysmian / Businesswire |
| Sinergias estimadas | US$ 150 mi/ano em 3 anos | Release da Prysmian |
| Grupo combinado (pro-forma 2025) | € 22,1 bi de receita e € 2,7 bi de EBITDA ajustado | Release da Prysmian |
| Conclusão prevista | Até o fim de 2026, sujeita a acionistas e reguladores | Release da Prysmian / Businesswire |
O salto de 9,8x para 7,1x é toda a tese financeira em uma linha: sem sinergia, o preço é de mercado; com sinergia entregue, fica barato. Quem já viu integração industrial atrasar sabe que esse delta é promessa, não fato consumado.
Por que a maior fabricante de cabos do mundo quer eletroduto e eletrocalha?
Porque o cabo parou de ser o item difícil da obra elétrica. No release, o CEO da Prysmian, Massimo Battaini, coloca a motivação assim: “Electrification, AI-driven data centers and digitalization all require major infrastructure investment, the opportunity in the US is substantial.” Em português direto: eletrificação, data center movido a IA e digitalização exigem investimento pesado de infraestrutura, e a oportunidade nos Estados Unidos é grande.
Repare no verbo. A frase não fala em condutor, fala em infraestrutura. A Prysmian está deixando de vender bobina para vender sistema elétrico. Hoje ela entrega o cabo e alguém entrega o caminho por onde ele passa. Depois de concluída a operação, ela pretende entregar cabo, caminho, suporte e acessório no mesmo pedido. É a diferença entre ser fornecedora de material e ser fornecedora de pacote elétrico.
Por que contenção virou gargalo em data center?
Aqui vale a explicação técnica, que não está no release e é leitura de engenharia. A densidade de potência por rack subiu de forma acelerada com carga de IA, e potência maior por rack significa mais corrente distribuída no mesmo espaço físico. Mais corrente com queda de tensão controlada significa condutor de seção maior, ou mais condutores em paralelo, ou os dois. Cada caminho desses multiplica o volume ocupado dentro da sala.
Cabo grosso e cabo em paralelo não são só custo de cobre ou alumínio. Eles cobram raio de curvatura, cobram taxa de ocupação do eletroduto, cobram largura e altura livre de leito, cobram espaçamento entre circuitos por causa de agrupamento e derating térmico, e cobram estrutura de sustentação porque leito carregado vira carga permanente na laje ou no rack de teto. O resultado prático é que a eletrocalha e o leito deixaram de ser acessório de fim de lista e passaram a ser item de caminho crítico do cronograma. Se o leito não chega, o cabo não sobe, o rack não energiza, e a sala não entrega.
Existe ainda o efeito de coordenação. Cabo e contenção são especificados por fornecedores diferentes, com prazos diferentes, e a compatibilidade entre eles costuma ser resolvida no canteiro, tarde. Comprar a Atkore é apostar que quem resolver essa costura na fábrica, e não na obra, ganha a preferência do cliente.
O que muda para quem projeta instalação elétrica?
Se a operação for concluída como anunciada, algumas mudanças práticas ficam no radar do projetista e do comprador técnico:
- Especificação em catálogo único. Cabo, eletroduto, eletrocalha e leito passam a ter chance de sair da mesma memória de cálculo e do mesmo fornecedor, o que reduz retrabalho de compatibilização.
- Compatibilidade de sistema declarada. Ocupação, raio de curvatura, acessório de fixação e capacidade de carga do leito podem vir dimensionados junto com o cabo, com responsabilidade concentrada em um único fabricante.
- Prazo de entrega tratado como pacote. Em obra de data center, um único cronograma de fornecimento vale mais do que centavos no preço unitário.
- Risco de concentração de fornecedor. Este é o outro lado. Pacote único reduz atrito e reduz poder de barganha. Especificação fechada em um fabricante costuma virar problema na hora da renovação de preço, do lead time apertado ou da substituição por indisponibilidade.
Vale o lembrete óbvio: nada disso transfere a responsabilidade técnica. No Brasil, o dimensionamento e a verificação continuam sujeitos à NBR 5410 e ao restante do conjunto normativo aplicável, e catálogo integrado não substitui memória de cálculo assinada.
E a operação da Prysmian no Brasil, como fica?
Aqui é preciso separar o que é anúncio do que é contexto. Os dados a seguir vêm de material institucional da companhia e da imprensa local, e não fazem parte do comunicado da aquisição.
Segundo material institucional da Prysmian Brasil, a companhia mantém cerca de sete fábricas no país. Entre elas estão Poços de Caldas (MG), onde fica um laboratório de ensaio elétrico com capacidade de até 800 kV, descrito como o mais relevante da América do Sul; Sorocaba (SP), que recebeu R$ 110 milhões em ampliação; Vila Velha e Cariacica (ES), ligadas a cabos umbilicais para aplicação offshore; além de Joinville (SC) e Londrina (PR).
A pergunta de pauta, então, é honesta e continua aberta: se a companhia global passa a se posicionar como fornecedora de solução elétrica e não de cabo, o portfólio de contenção da Atkore entra no catálogo brasileiro? O anúncio não diz. Nada no release trata de Brasil ou de expansão de linha fora dos Estados Unidos, e a tese comercial declarada é explicitamente americana.
Ainda assim, o timing conversa com três frentes locais que qualquer projetista brasileiro está acompanhando: os leilões de transmissão da ANEEL, que puxam cabo e estrutura; o debate sobre atração de data centers para o país, que é justamente o mercado citado pelo CEO; e a demanda offshore da Petrobras, que já é atendida pelas plantas capixabas. Se a resposta for sim, muda a lista de fornecedores homologados de muito projeto industrial no Brasil. Se for não, o Brasil segue comprando cabo de um lado e contenção do outro, como sempre fez.
O negócio já está fechado?
Não. Este é o ponto que mais gera confusão em manchete. O que existe hoje é um acordo anunciado. A conclusão depende da aprovação da maioria dos acionistas da Atkore e de autorização dos órgãos reguladores competentes, com previsão de fechamento até o fim de 2026, conforme o release da Prysmian e o comunicado da Atkore. Até lá, as duas companhias continuam operando separadas, com catálogos separados e políticas comerciais separadas.
Perguntas frequentes
Quanto a Prysmian vai pagar pela Atkore?
US$ 3,8 bilhões (cerca de € 3,3 bilhões) de enterprise value, a US$ 95,00 por ação em dinheiro, segundo o release da Prysmian e o comunicado da Atkore na Businesswire.
Qual foi o prêmio pago sobre o valor de mercado?
Depende da base. São 30% sobre o fechamento de US$ 72,96 do dia 31 de julho, segundo a Reuters, ou 23% sobre o VWAP de 90 dias, segundo o release da Prysmian. Ao citar o número, informe a base junto.
A Atkore fabrica cabo elétrico?
Não. A Atkore fabrica infraestrutura de contenção e distribuição: eletroduto de aço e de PVC, conduíte, eletrocalha, perfilado, leito e caixas. É exatamente por isso que a compra chama atenção, já que a Prysmian é fabricante de condutor.
Quando a operação deve ser concluída?
A previsão divulgada é até o fim de 2026, condicionada à aprovação da maioria dos acionistas da Atkore e ao aval dos reguladores.
Os produtos da Atkore vão ser vendidos no Brasil?
Não há informação sobre isso no anúncio. A Prysmian mantém operação industrial relevante no Brasil segundo material institucional da companhia, mas o comunicado da aquisição trata da oportunidade no mercado americano e não menciona expansão do portfólio para o Brasil.